5º dia, 6.Abril.2010, terça-feira

A alvorada foi às cinco horas da manhã para subir a grande duna e ver o nascer do sol. Só alguns subiram, dada a exigência da façanha, mesmo exaustos de uma noite mal dormida. A subida foi feita pela crista da duna e por etapas, para ser um pouco mais fácil. Os pés enterravam-se na areia e deslizávamos constantemente para baixo. O vento matinal era tão forte que quase nos fazia tombar para o outro lado da duna. A maior superfície do pé calçado permitia que não nos enterrássemos tanto, embora impedisse o agradável contacto directo com a areia. Sentados, a areia que deslizava à superfície com o vento entranhava-se por todo o corpo. Lá em cima a vista era empolgante, 360º de dunas e o nosso minúsculo acampamento lá em baixo. A neblina roubou-nos o ritual de ver nascer o esplendoroso sol africano, mas descer foi uma curta e viciante experiência, cheia de adrenalina, cinética e gravidade, quase apetecia voltar a subir de novo só para repetir os passos de gigante encosta abaixo.

Antes do pequeno-almoço na tenda berbere, pudemos assistir ao preparar dos dromedários, que passaram parte do tempo a ruminar, sentados sobre as patas. Bebemos café com leite de camelo e sumo de laranja e comemos pão com manteiga de camelo e compotas. Subimos para os dromedários e regressámos, enfrentando mais hora e meia de viagem pelas dunas, algo tortuosa para as costas de alguns e, particularmente, para a maioria dos homens...

Libertámos os jipes da nossa bagagem, que deixámos no Auberge du Sud, e partimos para os trilhos que contornam toda a extensão do Erg, apresentando-se este pela nossa direita. No Terrano foi necessário desmontar os faróis de longo alcance, completamente soltos pela trepidação. Estávamos em pleno Sahara, zonas de areia alternavam com zonas de pedra. A areia foi o palco de um interessante bailado levado a cabo por todos os jipes e o Discovery do Xarim foi o protagonista do primeiro “atascanço”.

Chegámos a Khamlía, localidade onde vive o Povo Blue ou Azul (nome com raízes no seu tom escuro de pele), originário do Mali, onde fomos recebidos com chá e amendoins e uma actuação de danças e cantares pelo grupo “Pigeons du Sable”, que envergava as tradicionais túnicas e turbantes brancos e utilizava instrumentos musicais artesanais. No final da apresentação fomos convidados a dançar com eles. Visitámos ainda a escola das crianças e estas apresentaram-nos o seu animal de estimação, preso por uma trela, a raposa do deserto (fennec), de focinho pontiagudo e pêlo muito macio, cor de caramelo, uma espécie protegida exclusiva da zona desértica norte-africana, de comercialização proibida.

Foi na associação deste povo que deixámos a primeira volumosa dádiva de bens, que incluía lápis, canetas, cadernos e roupa. Também demos alguns doces às crianças, mas logo aprendemos que as ofertas tinham de ser entregues aos adultos, porque as conseguiam distribuir de forma mais ordeira. Qualquer coisa que déssemos a estas crianças, daquelas coisas que já deixam as nossas entediadas, uma caneta, uma bola, um biscoito, era disputada com fulgor e traduzia-se numa invulgar felicidade para as crianças e num sentimento de missão cumprida para nós, colorindo um pouco a nossa alma.

No percurso para Rissani, estrada de alcatrão, o Defender do Alvarinhas teve um furo. Logo foram congregados esforços e rapidamente estávamos novamente em andamento. O grupo manteve-se sempre unido e solidário. O que quer que acontecesse com um elemento, afectava todos e a solução era encontrada na sinergia gerada.

Almoçámos na Maison Toureg, armazém com uma panóplia de produtos marroquinos, monopólio de uma única família berbere, uma espécie de pizza com três camadas, recheada de borrego, bem temperado com especiarias, e vegetais e acompanhada com chá preto. Fomos brindados com uma apresentação dos diversos tipos de tapetes marroquinos e respectiva história e uma visita aos armazéns. Comprámos algumas lembranças, mas os preços iniciais e, mesmo, os finais, não foram nada convidativos, especialmente os dos tapetes.

Atravessámos a cidade de Rissani e regressámos ao Auberge du Sud, onde tomámos o tão desejado banho passados dois dias. Alguns foram com os jipes para as dunas e, quando regressaram, não dispensaram uns mergulhos e muita palhaçada saudável na bem enquadrada piscina, já a noite havia caído.

O jantar foi agridoce, além de várias carnes, muitos vegetais, inclusive favas cozidas temperadas, e ameixas e figos. A conversa, como sempre, foi muito boa e a noite reparadora, numa cama grande e macia, num quarto fabuloso, a lembrar as “mil e uma noites”, com mobiliário portentoso em alvenaria.


Amanhecer no deserto


Uma simples bolacha


Actuação do Povo Azul (Blue)originário do Mali, Khamlia


Uma aula na École Mixte, Khamlia, onde foram deixados bens


Dormida no Auberge du Sud


Dunas do Erg Chebbi

4º dia, 5.Abril.2010, segunda-feira


Voltámos à última parte do percurso do dia anterior para ver as Gargantas do Dadès, porque quando por lá passámos era já noite cerrada. Não faltaram as fotografias aos hercúleos jipes e ao destemido grupo de aventureiros. A passagem do rio entre as colossais paredes escarpadas de pedra é tão estreita que só resta o espaço suficiente para o curso de água e uma estreita estrada. Parámos ainda no ponto mais alto da montanha para ver a estrada sinuosa descendente, o rio lá em baixo e, muito ao fundo, o hotel onde ficámos, encaixado na parte final da garganta.

Todos precisavam de pôr combustível e, nas bombas das localidades próximas, o gasóleo estava esgotado. Só o Susuki Jimny, a gasolina, ficou saciado. Depois da transferência de algum gasóleo para o Defender do Samuel, mantivemos a rota para o Erg Chebbi, a 310 quilómetros, na expectativa de que mais à frente todos poderíamos atestar, e assim foi, em Tinerhir. Fizemos um pequeno desvio no percurso para ver também as Gargantas do Todra. As obras na estrada e na edificação de equipamentos turísticos proliferavam, assim como as barraquinhas de vendas. Numa das gigantes paredes verticais destas gargantas, alguns corajosos faziam escalada. Na viagem para retomar a rota para o Erg, um jipe Toyota marroquino, em alta velocidade e numa condução completamente inconsciente, partiu o espelho retrovisor do Defender do Alvarinhas. O acesso às gargantas é estreito e é feito por uma tirinha de alcatrão, esfarelada nas bermas, que os marroquinos nunca abandonam, ladeada por uma parede de pedra e o rio ou por um precipício e construções.

Apanhámos a estrada para Ar-Rachidia, a cidade onde mora o nosso guia Ali, que abandonámos depois para atalhar por Erfoud, em direcção ao Erg Chebbi. Poucos montes, muitas planícies áridas e, de quando em quando, uma vasta zona de palmeiras e uma aldeia. A rodovia parecia uma recta sem fim. Parámos a meio caminho para almoçar, quando foi possível encontrar uma sumária sombra, desta vez sem nos acomodarmos devidamente para não falharmos as dezasseis horas, hora a que íamos ter a fantástica experiência de viajar de camelo. Não corria uma aragem e a temperatura elevava-se aos 34º.

Deixámos a estrada e atravessámos uma área totalmente deserta que nos fez tomar consciência que estávamos no mais mítico deserto do mundo, o Sahara. Para onde quer que se olhasse, até ao horizonte só vislumbrávamos planície deserta, pedras, areia e pó. A trepidação era tanta que faróis, antenas de rádio, grelhas de tejadilho, se iam soltando. Lá muito ao longe, começaram a desenhar-se algumas dunas e, depois de um troço com areia solta, finalmente chegámos ao Hotel Auberge du Sud, próximo de Merzouga, situado na orla do Erg Chebbi, grande área de deserto com as mais altas dunas de areia de todo o Sudoeste de África, formadas pelo vento.

Fomos recebidos na sala principal com o habitual chá quente e amendoins. Apenas tivemos tempo para preparar os sacos-cama, um agasalho, água, as máquinas fotográficas e lá fomos, cada um no seu dromedário (porque têm apenas uma bossa), organizados em grupos de cinco ou seis animais ligados por uma corda, cada grupo guiado por um berbere que caminhava à nossa frente.

Depois de uma hora e meia muito divertida, em que contámos apenas com a boa disposição de todos, no percurso de dromedário, essencialmente pela crista das dunas, mas incluindo algumas subidas e decidas, estas últimas mais turbulentas, chegámos ao acampamento berbere. As tendas encontravam-se no sopé de uma duna enorme e formavam um quadrado fechado com apenas uma entrada. O meio, parcialmente atapetado, era o local de convívio. Uma das tendas destinava-se às refeições. Jantámos sopa de cuscuz, tajine de frango, laranja e, sempre, muito chá quente.

Contámos histórias, ouvimos os testemunhos deliciosos do Ali, tocámos tambores, dançámos, cantámos, os berberes actuaram também para nós. Dormimos em tendas para seis, alguns ao relento, nos tapetes centrais, contemplando o céu estrelado e a noite amena e acolhedora. Perante uma aventura tão avassaladora, os cuidados com a higiene pessoal e o conforto civilizacional foram totalmente dispensados.


Atlas


Atlas - 3200m

Uma porta do Sahara

A caminho do Erg Chebbi

Dromedário

1º Dia - 02/04/2010 - Travessia do Estreito de Gibraltar


2º Dia - 03/04/2010 - Sítio Arqueológico de Volubilis


3º Dia - 04/04/2010 - Ifrane, a Suíça marroquina


3º Dia - 04/04/2010 - Floresta dos Cedros, Parque Nacional de Ifrane



3º Dia - 04/04/2010 - Atlas, lago a 2400m e pastores nómadas


3º Dia - 04/04/2010 - A vida difícil no Médio Atlas



3º Dia - 04/04/2010 - A imensidão do Atlas


3º dia, 4. Abril.2010, domingo de Páscoa

A alvorada foi mais cedo, seis horas e trinta da manhã, porque o dia ia ser longo, em marcha lenta, nas pistas de montanha, atravessando o Atlas. Estavam previstos 380 quilómetros e oito horas e meia de condução.

O Ali, que nos foi apresentado como um simples guia, surpreendeu todos pelo seu bom carácter e formação pessoal. Presença muito agradável, sempre disponível, culto e poliglota, gostava de falar português para ficar mais fluente na nossa língua. Ensinou-nos generalidades da história e cultura do seu país e nós partilhámos também com ele aspectos do nosso património pessoal e cultural. Informou, entre muitas coisas, que a parte esquerda do corpo, de acordo com o Alcorão, significa Satanás e só é utilizada em actividades menores. Foi necessário falar-lhe um pouco da dominância cerebral e de como é antinatural e contraproducente contrariar os esquerdinos, o que parece que os marroquinos desconhecem e, os que têm conhecimento, pouco podem fazer porque o livro sagrado do islamismo é lei para os muçulmanos.

Seguimos por Khénifra a caminho do Médio Atlas. A vista das montanhas do Atlas denuncia a imensidão do país. Continua o verde por todo o lado nos montes e vales e, agora, nos extensos planaltos, alguns albergando grandes lagoas a 1800 metros de altura.

À medida que rumamos para sul, a paisagem vai ficando mais agreste, com escarpas e desfiladeiros, muita pedra e poucas árvores e arbustos. A terra é mais árida e seca, mas no cume das montanhas ainda se vê neve e, nos vales, a água ziguezagueia no leito dos rios dando corpo a pequenos riachos.

As casas são cada vez mais pobres, quatro paredes de adobe, pedra e paus, as montanhas cada vez mais imponentes e desprovidas de vegetação. Continuamos a subir serpenteando, quase não se vêem vestígios humanos, nem sequer pastores nómadas. Parámos para a foto de toda a coluna, numa paisagem imponente, a cerca de 3200 metros.

No cume de uma montanha próximo de Imilchil, aos 2400 metros, surge um grande lago, Tislit. Entrámos numa picada, a paisagem é quase lunar, no meio do nada um casebre, mais à frente três crianças. Depois só nós, muito pó e muito vento. Parámos numa segunda lagoa, Iseli, e regressámos à primeira para almoçar, mais simpática por estar rodeada de algumas árvores. O vento que se fazia sentir, mesmo abrigados pelos jipes, apressou o almoço.

Atravessámos o Médio Atlas e sentimo-nos pequenos perante a vista fabulosa a lembrar o grande “Canyon” nos EUA, salvo as devidas proporções. Enquanto uns regalavam a vista e fotografavam o momento, outros aproveitavam para fazer uma caminhada pela estrada ou para tocar na neve que teimava em manter-se agarrada ao cume das montanhas. O insurrecto alentejano quis ter a experiência de correr àquela altura e naquele sítio inesperado e apanhámo-lo depois pelo caminho.

O alcatrão há muito ficara para trás, as aldeias, paupérrimas, quase não se descortinavam nas montanhas devido às suas construções muito simples, com pequenos orifícios a servir de janelas, e do mesmo material e cor envolventes, completamente integradas na paisagem. As crianças, ensinadas a pedir desde os primeiros anos de vida, erguiam as mãos, num misto de aceno e pedido para parar, atravessavam-se na estrada, faziam piruetas, corriam ao nosso lado, batiam nos jipes, para que lhes déssemos qualquer coisa. Não resistimos e ofertámos bolos, bolachas, amêndoas, bolas e bonés, em andamento. O pó estava por todo o lado e as formas quase não se distinguiam, a cor era sempre a mesma, terracota.

Nos vales, as aldeias surgiam próximo de cursos de água e de pequenos nichos de áreas de cultivo, quebrando a monotonia cromática.

No percurso descendente, a luz vermelha dos travões do Terrano acendeu-se, pelo que tivemos que descer as montanhas muito lentamente, com as redutoras, e fomos alcançados por outra coluna de jipes portugueses, de Oeiras, cerca de dez. Formámos então, durante alguns quilómetros, uma caravana majestosa. Veio mais tarde a concluir-se que o problema não era nos travões, mas apenas eléctrico.

O resto do caminho foi feito de noite, até Boumalne Dadès. Ficámos no Hotel Kashbad de la Vallé. Jantámos sopa de tomate e outros legumes, “tajine” de frango com legumes em açafrão, salada e bolinhos de baunilha. Depois fomos ao bar do hotel onde encontrámos turistas animados de várias partes do mundo, inclusive orientais, ouvir um grupo tocar os tambores tradicionais e beber chá verde com menta.

Os quartos eram muito agradáveis, ouviu-se o rio a correr toda a noite e, de manhã, pudemos observar, da espaçosa varanda de cada quarto, que estávamos num estreito vale, entalado entre montanhas de pedra, onde só cabia o longilíneo hotel, a estrada e o rio.

2010/05/21

Rádio África


2º dia, 3.Abril.2010, sábado

Partimos cerca das nove horas e trinta rumo a Azrou.

Passámos por Ksar el Kebir, Souk-el-Arba-du-Rharb, Sidi-Kasem.

A paisagem é semelhante, mas numa escala muito superior, às planícies ribatejanas, verdinhas, alguns cabeços pontuados de oliveiras e laranjeiras, mas a maioria desnudados, só verde, muito verde.

A pastar, algumas vacas e muitos rebanhos de ovelhas e cabras.

Os burros e mulas estão presentes em todo o quotidiano dos marroquinos, à falta de outro transporte e maquinaria são um recurso muito valioso.

As povoações são pobres e a maioria das construções inacabadas, à espera que as próximas gerações se instalem nos pisos superiores por construir.

Os autóctones vestem túnica comprida com capucho, a “gilaba”, os homens de branco, tons terra ou tons sóbrios, as mulheres de cores mais vivas, por vezes com estampados, e calçam “babuchas”, um sapato de pele de camelo que pode ser pisado no calcanhar e servir de chinelo.

Em Marrocos sente-se a discriminação das mulheres. Logo na fronteira, todas as diligências são tratadas, preferencialmente, com os homens do grupo. Raramente se dirigem às mulheres e, frequentemente, quando as mulheres os interpelam, respondem para o homem que está mais próximo. À mesa, só são servidas em primeiro lugar se o parceiro fizer questão e, quando as mulheres falam para os marroquinos, estes mantêm sempre uma distância confortável e costumam responder dirigindo o olhar para o homem mais próximo.

Quando encaramos as mulheres marroquinas, o gesto já está interiorizado, imediatamente baixam a cabeça e os olhos, por vezes tapando a cara com o véu solto pelo rosto, deixando apenas os olhos expostos. Algumas mulheres ostentam mesmo “burcas” mas, a maioria, apenas um véu na cabeça e a túnica até aos pés. As crianças, independentemente do género, na sua espontaneidade e pureza, interagem naturalmente, sorriem, acenam, cumprimentam com um bonjour ou um au revoir.

Em vez de carros cruzamo-nos com carroças puxadas por burros ou mulas, sempre apinhadas de gente e bagagem, fazendo lembrar Portugal há umas décadas, com a particularidade destas carroças terem rodas com pneus e molas, o que permite deslizar com todo aquele peso e fora da estrada. Vêem-se também muitos jovens de bicicleta e algumas motorizadas que ocupam a estrada de forma desorganizada.

Muitos terrenos permanecem alagados e os montes apresentam cicatrizes profundas da última intempérie, decerto responsável por todo o verde ecológico que testemunhamos a perder de vista.

Um jipe foi mandado parar por ter tirado uma fotografia num cruzamento citadino onde estava um polícia. Temos de ter cuidado com o que fotografamos e filmamos porque não é do agrado dos locais. Mesmo de longe, frequentemente acenam a informar que não concordam com os ditos registos. As meninas e as mulheres, assim que vêem uma máquina, imediatamente viram as costas ou tapam o rosto. A discrição e o bom senso têm de imperar.

O almoço volante foi num bonito olival e o sol escondeu-se para tornar o nosso repasto mais aprazível. A saborosa comida portuguesa saltou das caixas de mantimentos e esteve no seu melhor, queijos, chouriças, feijoada, grão-de-bico com mão de vaca, vinho, bolinhos caseiros, sempre acompanhada pelo apetitoso pão marroquino, muito semelhante, na forma, às pizzas e, para sobremesa, nunca faltaram as doces e sumarentas laranjas marroquinas compradas à beira da estrada.

Parámos para fotografar o Sítio Arqueológico de Volubilis, ruínas de uma cidade romana edificada pelo menos no século III, que foi reocupada no século VI pelos muçulmanos, e que jaz tranquilamente num mar de verde quase infinito. Foi declarada Património mundial da UNESCO em 1997.

Nesta zona de África os campos são férteis e organizados, os marroquinos trabalham árduamente a terra com a ajuda dos seus animais e um arado ou, simplesmente, com uma enxada e a força dos seus braços.

Como comunicávamos por rádio e walkie-talkie, a movimentação estava sempre afinada, um parava e toda a coluna suspendia a marcha. Fomos divididos em três grupos, cada um com três jipes, para facilitar o controlo, no meio os de menor cilindrada e, nas extremidades da coluna, os conhecedores do terreno e responsáveis pela expedição, a primeira posição para o Discovery do Rui e Ramiro, com a mais-valia do guia, l’ amie Ali, e a última para o Toyota do Romeu e Zé.

Em muitas localidades, nos cruzamentos e rotundas, e em alguns pontos das vias principais, aparecia uma parelha de polícias atentos, especialmente à velocidade. Depois de diversos troços com obras na estrada, maioritariamente, para pavimentação e construção de rotundas, chegámos ao Parque Natural de Ifrane, a cerca de 1700 metros de altura, com visibilidade turva pela neblina e dado o adiantado da hora, quase dezassete horas.

Atravessámos a cidade de Meknès que é surpreendente pela sua construção com os telhados muito inclinados, herdada dos seus fundadores franceses, para fazer face aos nevões de quase um metro de altura no Inverno. É espaçosa, muito organizada e amiga do ambiente, limpinha e repleta de jardins e árvores parecidas com choupos, ainda sem folhas, e muitos cedros.

A esta altitude, o frio, os cedros e a inspiração franco-suíça nas edificações, completam a inusitada paisagem alpina. Meknès é uma cidade abastada e multicultural, ostenta uma universidade construída pela Arábia Saudita, tida como uma das melhores de África, onde filhos de ministros e outros jovens economicamente favorecidos de diversos países africanos vêm formar-se, com propinas a ascender a mais de 2000 euros mensais.

Apenas espreitámos a Floresta dos Cedros porque a noite caía e conseguimos ver alguns macacos selvagens, mas ainda tivemos tempo para fazer um pequeno percurso fora de estrada e com direito a uma passagem encharcada por um riacho.

Chegámos ao Hotel Le Panorama às dezanove horas e trinta, em Azrou, degustámos um saboroso creme de legumes e “tajine”, o prato mais típico de Marrocos, de frango, vaca, borrego ou omoleta, à escolha de cada um, uma deliciosa tarte de maçã e… bom vinho vindo de Portugal!

Fizemos apenas 300 quilómetros, estavam previstas quatro horas de condução, mas passámos praticamente todo o dia dentro dos jipes, pela necessidade de não perdermos ninguém pelo caminho…


A minha cunhada Luísa Carvalho, aventureira destemida, participou na 1ª Expedição a Marrocos pelo núcleo TT dos Serviços Sociais da CGD que decorreu de 2 a 12 de Abril de 2010.

Passo assim a publicar as suas crónicas, devidamente autorizadas pela autora, e a sonhar com uma participação numa expedição similar.

1º dia, 2.Abril.2010, sexta-feira santa

Depois de termos conseguido acomodar tudo nos jipes, o que era preciso e o que não era preciso, dando prioridade aos haveres que cumpririam o grande objectivo humanitário da expedição e ao material e equipamentos de prevenção de qualquer eventualidade nas máquinas ou nas pessoas, partimos, após a reunião do grupo e a fotografia de "família", em Lisboa, frente à sede da CGD, eram sete horas da manhã.

Tinha início a 1º Expedição a Marrocos organizada pela Secção Todo-o-Terreno dos Serviços Sociais da CGD, nove jipes, vinte e quatro aventureiros, a saber: Land Rover Discovery, com o Rui Guarda e o Ramiro Gameiro Jorge, de Lisboa, Land Rover Defender, com o Fernando Alvarinhas e o mecânico de serviço, o Luís Henriques, de Penacova, Land Rover Discovery, com o Arnaldo Xarim e o filho Guilherme Xarim, de Santarém, Nissan Terrano I, com o casal Marino e Luísa Carvalho, de Rio Maior, Land Rover Defender, com o Samuel Araújo e o José Alberto Cerqueira, de Arcos de Valdevez, Susuki Samurai, com o Filipe Ribeiro e o Sérgio Carvalho, de Peniche, Mitsubishi Space Wagon, com o casal Carlos e Paula Leitão e os filhos Pedro e Tiago Leitão, de Lisboa, Nissan Patrol, com o casal Alfredo Antas Teles e Adozinda Pinto e os amigos Mariana Pires e António Pedro Ferreira, de Lisboa, e Toyota Land Cruiser, com o casal Romeu e Ana Joaquim e o casal José Alberto Pereira e Isabel Silva.

Um sol gordo e pálido assinalava a margem sul do Tejo e compunha uma sinfonia de cores em tons pastel, impregnando a travessia da Ponte Vasco da Gama de uma candura repousante e lívida. Lisboa ficava para trás, completamente desfigurada pela quase ausência de carros e pessoas nas ruas, e iniciámos o primeiro dia de viagem, 600 quilómetros até Tarifa.

Uma viagem sem imprevistos é como um livro sem histórias e, no nosso livro, a primeira história surge à laia de prefácio, tão prematura ocorreu. O Suzuki Samurai parou a poucos quilómetros de Beja, supostamente, com problemas na caixa de velocidades, e foi necessário tomar decisões. Parte da carga foi distribuída pelos outros jipes e os seus dois ocupantes, o Filipe e o Sérgio, recorreram à assistência em viagem e regressaram, de táxi, a Peniche, seu local de partida, onde dispunham de um segundo Suzuki, neste caso Jimny, para se juntarem novamente a nós, já em Marrocos. Afinal, um familiar trouxe o tal jipe suplente até Lisboa, abreviando a viagem destes resistentes.

A planície alentejana vestia verde intenso, estampado aqui e ali de amarelo ou lilás e, como acessório, apresentava um azul celestial, cada vez mais quente.

A coluna integrava então oito viaturas, mas logo passámos a nove, depois do último jipe da expedição, outro Suzuki Samurai, se juntar a nós, em Beja, com o Vitor Carneiro e a filha Cláudia Carneiro.

Entrámos em Espanha cerca das onze horas, por Rosal De La Frontera. A alentejana Matilde, o Samurai, começou com afrontamentos, pelo que tivemos que parar novamente a caminho de Sevilha, a primeira vez para a refrescar com água do Luso, outra vez para lavagem do depósito de água, todo besuntado de óleo e, depois de uma marcha lenta e agonizante para quem estava desejoso de viver a soberba experiência de atravessar o estreito de Gibraltar, assim como para os zelosos no cumprimento de horários, a derradeira paragem, a Matilde teve de ficar em Santiponce-Sevilha para tratamento ambulatório. Mais uma vez tivemos que redistribuir a carga pelos oito jipes restantes e, neste caso, também os seus dois ocupantes, o Vitor e a Cláudia.

Esta demora por terras da Andaluzia acabou por proporcionar a reunião do grupo ainda em Espanha, o Jimny que transportava o Filipe e o Sérgio alcançou-nos e estávamos novamente nove jipes e vinte e seis aventureiros a entrar no ferry-boat em Tarifa, depois de recolhidos os bilhetes em Los Barrios.

Chegámos ao porto de Tarifa cinco minutos antes da hora da partida, vinte e uma horas, mais uma hora que em Portugal, o ferry quase só para nós, imenso, o sol a esconder-se nas águas atlânticas deixando-nos mergulhados num envolvente cénico pelas luzes brilhantes e formas imperfeitas a diluírem-se na noite. A noite acabou por nos cegar e a contemplação do norte de África e da extremidade sul da Península Ibérica ficava agendada para a viagem de regresso. Contudo, o primeiro capítulo da nossa história ficou mais recheado e inesquecível!

A viagem marítima até Tanger foi muito tranquila e o desembarcar de pessoas e viaturas fluente, mas deparámo-nos depois com a demora habitual dos trâmites legais para entrar em Marrocos. O guia Adidou Ali, amigo do Rui de expedições anteriores há cerca de dez anos, juntou-se a nós, um marroquino berbere que se veio a revelar de excepcional valor humano.

Após 45 quilómetros chegámos ao Hotel Al-Khaima, em Asilah, às vinte e três horas locais, menos uma que em Portugal. O jantar incluiu azeitonas temperadas com azeite e pimentos como entrada, sopa marroquina, peixe frito e laranja com canela.

O cansaço e o sono obrigaram a uma retirada imediata para os quartos.

2010/04/15

TOCA LED ZEPPELIN
































Nos tempos mais activos, refiro-me aos anos de 1996 a 1998, era comum assistirmos a concertos de outras bandas quer estivessem elas no mesmo “cartaz” que os Icon Vadis quer outras com as quais sentíamos a devida afinidade merecedora de uma deslocação dedicada para assistirmos ao respectivo concerto em nome próprio.

Numa noite de boa memória no Rosa dos Ventos em Montemor-o-Velho, local de culto para nós, assisti juntamente com o Jorge Branco e com o Zé Tó Rodrigues à actuação dos Turbo Junkie, esta rapaziada liderada pelos irmãos Praça tinha lançado há bem pouco tempo um EP intitulado “Used” com um som cativante… tocavam um folk/rock inspirador com um trecho numa das canções do “Sympathy for the Devil” dos Stones.

Num dos momentos altos do concerto uma voz bem regada gritou várias vezes uma frase marcante que nos leva a repeti-la nos mais variados contextos até aos dias de hoje, “TOCA LED ZEPPELIN” gritava o jovem com a força do álcool como se o amanhã não existisse… “TOCA LED ZEPPELIN”… a banda ria mas não satisfez o pedido.

A frase com todo o seu nonsense associado, e especialmente por isso, teve imensa piada, a partir desse momento fosse qual fosse o género de concerto a que assistíssemos (jazz ou fado por exemplo) em jeito de piada aplicávamos o famoso “TOCA LED ZEPPELIN” e a noite estava ganha.

No passado Sábado, no nosso concerto no Karranka Bar na Curia, a ingenuidade de um ternurento pedido trouxe-me à memória a famosa frase…

Vocês tocam BON JOVI ?”

A minha nega devolveu-me nova pergunta…

e XUTOS & PONTAPÉS ?

Eu, em esforço para não sorrir exageradamente sonhava já com a derradeira pergunta “e LED ZEPPEPLIN ?”

A 3ª pergunta acabou por não sair e o jovem resignado terminou com um “pois… só tocam este estilo de música e assim… mas são muito bons

Ainda fui a tempo de dizer-lhe “Obrigado

A pergunta: "Por que é que tu és tão linda?" A resposta: "Puque chou filha do papá." Ora aqui está.

A vida é bela... e as torneiras também.

In a sunny spring day of 1986 I was about to accomplish my 14th anniversary, I was looking out for a gift for my father’s birthday in the streets of Lisbon with my favorite aunt.
It was for sure the “no money years” so I did need my aunt around to pay the gift, it was symbolic because the main one was me… I was born in the same day of his birthday… this fact made me always proud and I did never forget to tell it to everyone.
The famous “I was born in the same day of my father’s birthday” remains till today.
At that time in the most beautiful train station of Lisbon (Rossio) we did have always a solution for a gift… “let’s go to that one”… my choice was a disc store, I was looking for a 45rpm in the “W” music-stand, I was looking for my favorite song “The Whole of the Moon” from the Waterboys.
As a matter of fact that single intended to be not only a gift for my father but also for myself and I saw no crime at all with that.
I did found it.
When I was prepared to pay for it her voice almost shot me down “that song is not bad but I prefer this one and I think your father too”!
I was without reaction for a few seconds in a frustrated attempt that she paid for it and forgot that nightmare choice, her choice, but no success. Inside my head I was screaming, I was furious, OH NO, FEARGAL SHARKEY…. NO PLEASE NO… that guy with a strange face… a guy that almost looks like a blonde girl with that hair…. NO PLEASE NO.
I prefer everything about the Waterboys and his mentor Mike Scott instead of Feargal Sharkey, I rather prefer the songs… that voice… the black Ovation guitar… the attitude… the hair… and of course the lyrics… despite of my only 2 or 3 years of English school “The Whole of the Moon” lyrics was far better than the annoying “… and good heart these days is hard to find…”.
No way… the money wasn’t mine so I brought home “A Good Heart” to give to A GOOD HEART as a birthday gift, I don’t know how but she stills my favorite aunt and believe me… I have a lot of aunts.
She forced me to bring home Feargal Sharkey instead of Mike Scott… it’s not fair.
Later, as a revenge, I don’t have one but three “Whole of the Moon”… in the “This is the Sea” album, in the “Best Of 81-90” and in the “T.W.O.T.M. The Music from Mike Scott and the Waterboys”.

2009/10/30

Blog de Escuta #23

Uma versão actualizada de uma grande canção dos anos 80, um dueto de Alisson Krauss com John Waite que após 25 anos continua em excelente forma.

2009/10/27

Blog de Escuta #22

2009/10/22

"Cala-te pá"

Na minha “carreira” musical muitos episódios engraçados sucederam, o que agora vos conto decorre numa fase muito forte do nosso percurso em que as actuações surgiam regularmente e bem pagas contrariamente ao estatuto de banda desconhecida.
O espectáculo estava agendado para as festas da Amadora, íamos tocar num campo de futebol com os GNR, Santos & Pecadores e com a Fúria do Açúcar, 4 bandas numa só noite, era o tempo dos saudosos bons orçamentos das Câmaras Municipais.
Estávamos de facto ansiosos com essa actuação.
O problema com as entidades patronais de cada um de nós ficou resolvido com 2 dias de férias e assim lá partimos todos catitas num monovolume com motorista e tudo.
Normal seria que, ao passarmos por Leiria, a temperatura subisse uns 2 graus mas naquele dia baixou e surgiram umas nuvens cinzentas como pré-aviso de que algo não iria correr muito bem, nada abalava o nosso entusiasmo, chegados ao recinto o ego aumentou ainda mais… inesperadamente o público que já lá estava gritou e bateu palmas mal saímos da Sharan.
Depressa perceberam que não eram as ilustres vedetas que tocariam nessa noite mas sim os menos famosos de todos ainda assim continuaram com as palmas e com cânticos usados em jogos de futebol… estávamos radiantes… queríamos tocar.
As nuvens decidiram confirmar o pré-aviso e começou a chover em pleno sound-check dos GNR.
O sound-check é o “fazer som” antes das actuações para que tudo fique equilibrado e soe bem, os últimos a actuar são os primeiros a fazer o som e por essa ordem seríamos os últimos a fazer som porque iríamos ser os primeiros a actuar.
Na música ao vivo o estatuto é medido assim o último a tocar é habitualmente a banda mais consagrada.
A chuva atrasou tudo, mesas de som e restantes aparelhagens tapadas em stress, o público que nos aplaudiu desapareceu do local mas o pior estava para vir, a Fúria do Açúcar e nós apesar de integralmente pagos não actuaríamos nessa noite devido ao grande atraso no sound-check.
Eu estava profundamente triste com a situação, tinha divulgado tanto e orgulhosamente o evento que tinha grande parte dos familiares lisboetas na assistência, era daqueles dias em que musicalmente sabíamos que iria correr bem.
Depois do jantar com os Santos & Pecadores e com a Fúria do Açúcar e depois de assistir às actuações dos eleitos decidimos ir para o hotel, como rapazolas poucos tinham tido a experiência prévia de ter estado num hotel de 4 estrelas… tudo era novo e espectaculamente grandioso.
Na manhã seguinte o nosso manager Rui Martins foi fazer o check-out, vendo-o muito perturbado dirigi-me a ele e perguntei-lhe o que se passava… “eh pá um dos quartos tem um adicional de oito contos e tal de HOT TV e MINI BAR”… “andam a brincar pá?”… "nunca viram umas mamas?"... “não sabem que isto é caro pá?”.
A cara de aflitos de uns denunciou-os, os restantes riam perdidos, e ele lá continuou dirigindo-se ao balcão “vieram a Lisboa ver HOT TV e esvaziar o MINI BAR e o Rui é que paga”.
“Oh Rui só vimos um bocadinho”
“Cala-te pá”
P.S. Alguns anos mais tarde a cena (mais ou menos igual) repetiu-se mas num contexto diferente da minha vida.
Para quem ainda não conhece o blogue dos Icon Vadis pode ler esta e outras histórias AQUI.

2009/09/10

Que Mulher !??!

Depois de uns dias em "Marrocos" na companhia de um português e de um basco é com enorme alegria que verifico que vou ter que arrumar a urna do blogue que entretanto tinha encomendado e que já foi entregue.
Talvez tenha um espaço para ela na garagem.
A actualidade diz-nos que aquela mulher que era um homem é afinal uma mulher depois de suspeitas que poderia ser também homem e mulher, é isto mesmo, a menina consegue sem grande esforço ser mulher.
Até já é capa de revista como mulher depois de ter aparecido em várias outras como homem... perceberam?
Não?
Vejam então a imagem.
Não deixa de ser curioso o facto da mulher ter qualquer coisa de macho até no nome Caster Semenya.

Mais um almoço domingueiro e mais uma deliciosa história/memória dos tempos da África portuguesa, aquela mesa foi feita para 6 mas eu gosto mesmo é daqueles almoços com as habituais 11 pessoas (7 adultos e 4 crianças).

Estão quase sempre lá todos um bocadinho apertados é certo mas muito dificilmente esse detalhe sem importância faz-nos trocar de programa, com o mesmo ritmo que os famosos petiscos do pai Amadeu vão desaparecendo a conversa flui com entusiasmo genuíno e desta vez de entre muitos outros assuntos destaco a tal memória de África.

De facto nunca tinha perguntado como é que uma pessoa que foi para Moçambique (o meu pai) em pouco mais de 3 anos já era sócio da Ferrageira do Alto Maé juntamente com o Sr. João Sampaio, não sendo ele um jovem com dinheiro mas apenas um que como tantos outros tinha ido tentar a sua sorte na ex-colónia… como teria arranjado o dinheiro e o parceiro certo para a tal sociedade?

Para além da vontade e do voluntarismo é preciso ter alguma sorte, e o meu pai teve-a.

Em Novembro de 1964, acabadinho de chegar a Lourenço Marques vindo de Vila Franca de Xira e com 20 anos, o meu pai levava na bagagem um embrulho para ser entregue ao seu irmão mais velho com quem iria viver nos primeiros tempos e cujo conteúdo desconhecia, o mistério seria desvendado nas primeiras horas de África, era um queijo de Évora que para além do tempo que já tinha ainda levou com mais um mês de barco (paquete Moçambique) do Atlântico norte até ao Índico sul.

O produto alentejano aguenta tudo… já todos sabemos.

O queijo era para um senhor também ele oriundo da terra dos campinos, como o meu pai tinha tempo e queria conhecer a cidade o meu tio pediu-lhe para ir entregar o já famoso queijo, e tudo começou assim, quando voltou para casa não só já tinha um emprego como ia ganhar mais do que o meu tio que trabalhava como caixa no Banco Nacional Ultramarino.

O tal senhor era gente importante em Lourenço Marques e porque em tempos o meu pai (em Vila Franca de Xira) tinha feito desinteressadamente um recado a esse mesmo senhor poucos anos mais tarde oferecia-lhe emprego como apontador de obras da Sofil.

A Sofil era uma sociedade de construções que funcionava como grupo, tinha várias empresas associadas que principalmente operavam para fornecer a “empresa mãe”, tinha uma empresa de areias, uma de tintas e mais algumas outras. Faltava contudo à Sofil uma empresa que fornecesse os restantes materiais de construção e ferramentas (o chamado material fino… o grosso são as areias, cimentos, tijolos) e assim foi criada a Ferrageira do Alto Maé tendo sido destacados de outras empresas do grupo os dois principais funcionários.

Um desses funcionários era o meu pai que tinha a responsabilidade do contacto com as pessoas, o outro era o tal Sr. João Sampaio menos de contacto mas nuclear pois ficou responsável pela contabilidade da empresa.

Um trágico acontecimento mudou a vida destas 2 pessoas, um prédio de 15 andares que tinha sido construído pela Sofil tinha caído em Lourenço Marques (na Av. 24 de Julho perto da pastelaria Princesa), uma comissão de inquérito para apuramento de responsabilidades que tinha ido da metrópole decidiu dissolver toda a sociedade dando a oportunidade e o direito de preferência aos seus ex-funcionários de ficarem com as respectivas empresas do grupo.

Com a fundamental ajuda da banca o meu pai e o seu sócio compraram a Ferrageira do Alto Maé por 2 mil contos e conseguiram também uma conta caucionada de outros 2 mil contos e tudo isto a pagar em 3 ou 4 anos… e foi pago.

Decidem investir novamente (sempre com a banca por trás) para poderem comercializar ferro, para que tal fosse possível a Associação dos Ferrageiros (uma espécie de Ordem dos Farmacêuticos) exige a compra de um camião, de uma grua e mais uma infindável lista sempre exigida aos poucos.

Tendo passado não mais de 6 ou 7 anos após a compra da sociedade, depois de pago este novo investimento e quando começavam a distribuir lucros surgem os cravos, a Ferrageira foi nacionalizada e convertida como parte da Dimac voltando tudo ao zero.

Meus amigos vou a banhos, também eu aderi a essa linda moda do querido mês de Agosto, tanto critiquei este oitavo mês do ano que vim cá parar e temo ser difícil sair.
Seja como for os Santos vão de férias por uns dias repetindo a zona onde em 2000 passámos umas das melhores de sempre e sem dúvida as mais económicas (tema obrigatório para 2009... lembram-se na certa deste post).
Até breve.

Os Santos foram à bola novamente.
Desta vez na Catedral num final de tarde de um Agosto com sabor a Fevereiro.
O jogo prometia, em campo o nosso S.L. Maior Clube do Mundo Benfica vs A.C. Milan, no final o que esperávamos... a vitória.
O JoaQuim defendeu 4 penaltis e já está mais um troféu nesta pré-temporada.
Por mim até pode ter sido um joguito a feijões mas só de ver aquele sorriso do meu Pai já ganhei o meu campeonato.

2009/08/07

Traumas

Sabendo que os traumas da colonização portuguesa estão ainda bem presentes nos “nossos” países africanos, nas pessoas que lá viveram e nas que lá ficaram, é Moçambique pelas razões óbvias e conhecidas que me faz parar muitas vezes para pensar sobre tudo e mais alguma coisa.
Deixo-me ir em pensamentos e tentativas de chegar a conclusões que servem para tudo, para preencher a minha mente, para distrair-me, para encurtar os mais de 7.000km de distância, para convencer-me que mais tarde ou mais cedo vou mesmo lá parar.
Neste momento considero-me limpo ou purgado da parte que me tocava desses traumas, a viagem feita em Junho do ano passado serviu quase sem que me apercebesse também para isso, estou livre da carga negativa das imensas e boas histórias vindas de todos os lados, livre das histórias ouvidas durante anos e anos acerca da injustiça da descolonização ou dos bens perdidos.
A fúria colou-se nos bens perdidos mas para mim o pior de tudo foi a grossa fatia cortada à vida das pessoas que eram felizes… eram realmente felizes.
Apesar de me considerar limpo desses traumas e motivado em parte por esta notícia que na realidade deixou-me muito triste e chateado ocupei-me agora a divagar, em jeito de vingança, pelos traumas dos Moçambicanos do lado de lá, dos que actualmente lá vivem, dos nomes das ruas e da designação dos partidos políticos.
Sem qualquer ponta de presunção gostava de ver Moçambique dar mais um passo em frente e exemplar perante os restantes países vizinhos isto porque considero que actualmente não faz qualquer sentido manter-se a designação dos 2 principais partidos.
Porque não mudar?
Frelimo – Frente de Libertação de Moçambique… frente de libertação do quê? Renamo – Resistência Nacional Moçambicana… resistência nacional a quê?
Não estará na altura de virar a página?
O que me deixou triste e chateado na tal notícia e porque sempre fui português mas sem nunca renegar Moçambique, daqueles que até está a pensar em pedir a dupla nacionalidade só mesmo para fazer sorrir o meu coração, foi esta frase:
... a Comissão Municipal de Toponímia da Cidade de Maputo deliberou no ano findo a substituição de todos os topónimos acima descritos na cidade de Maputo. Aliás, no entender da Directora Municipal Adjunta do Planeamento Urbano, Teresa Chissequere, a substituição justifica-se pelo facto de que “as personalidades portuguesas não deram nenhum contributo ao país”.
E mais esta:
... esta substituição visa responder a um dispositivo da valorização da cultura moçambicana e do bem comum do seu povo, pelo que “ a toponímia herdada do tempo colonial remete-nos às mazelas da opressão do nosso povo”.
Do que sempre soube foi que em 1975 tudo o que em Moçambique tinha algum cheirinho a Portugal foi alterado facto esse que até considero perfeitamente normal no contexto da época.
O que já não acho nada normal é a ainda necessidade em "pegar" nisso para justificar o que quer que seja, Moçambique faz e fará o que bem entender de si próprio, eu só quero é que evolua, cresça, progrida e que todos lá vivam melhor.
Se em 1975 "limparam" quase tudo o que cheirava a Portugal em 2009, 34 anos depois, creio que pouco haverá para "limpar".
Se em 1975 os nomes de Mouzinho de Albuquerque, António Enes, Massano de Amorim, Manuel de Arriaga, Miguel Bombarda, Craveiro Lopes, só para citar alguns com maior destaque na cidade das acácias nada diziam a Moçambique pelas razões que bem entendi no seu devido contexto pergunto o que contribuíram ou o que continuam a representar:
Ho Shi Min?
Karl Marx?
Vladimir Lenine?
Salvador Allende?
Friedrich Engels?
Olof Palme?
Kim Il Sung?
Mao Tse Tung?
Ou o que contribuíram para além de eventualmente algures na década de 60 e no início de 70 terem apoiado a resistência ou a causa:
Patrice Lumumba?
Julius Nyerere?
Ahmed Sekou Touré?
Mohamed Siad Barre?
Marien Ngouabi?
Kwame Nkrumah?
Kenneth Kaunda?
Dar-Es-Salam?
Todas estas personalidades (e uma cidade) dominam as principais ruas e avenidas de Maputo, e Maputo para mim representa Moçambique no mundo, quer-se valorizar a cultura moçambicana mas exceptuando Eduardo Mondlane que rua ou avenida principal honra outra personalidade moçambicana?
Eusébio ou Mário Coluna serão para muitos traidores, Mia Couto, Malangatana ou Maria de Lurdes Mutola nada representam?
Av./Rua de Portugal não encontrei no mapa de Maputo, Rua de França, Av. de Angola ou do Zimbábue sim encontrei.
Confundir políticos ou gente com poder em Moçambique e perguntar porque continuam a renegar Portugal é quase crime, o que se sente no verdadeiro povo não é isso, eu próprio não senti isso no povo em relação a Portugal, só que dói.
Esses políticos e gente de poder serão talvez os mesmos que pedem a Portugal o perdão da dívida.

Talvez poucos saibam mas eu desde ontem ou anteontem (não interessa ao certo quando) que sei que Portugal teve afinal mais uma ex-colónia em África.
É isso mesmo tivemos mais uma.
Em conversa com a minha filha e a propósito das férias de uns amigos muito próximos fiquei a saber que também andámos por CALDO VERDE.

Eh vocês aí? Divirtam-se em Caldo Verde.